Polo de Fotografia

Entrevistas

Entrevista com: Guilherme Maranhão

Ele usa o scanner no lugar de uma câmera fotográfica para registrar cenas cotidianas. De paisagens urbanas, a imagens da casa da avó ou do próprio corpo, Guilherme Maranhão cria uma aquarela diferenciada. Em entrevista à Claudia Tavares, ele conta como surgiu o interesse pela imagem e a ideia da refotografia presente em suas obras.

pluraciades, 2005-2009

pluracidades, 2005-2009

CT – O que te aproximou da fotografia?

GM – Acho que tive sorte de ser do tipo que gosta de conversar. Encontrei muita gente desde que comecei a clicar com meus 16 anos de idade. Essas pessoas me apresentaram uma fotografia lúdica, interessante, profunda, terreno para expedições sensacionais ou fantásticas. Enfim, descobri que a fotografia, a minha fotografia, poderia ser o que eu quiser que ela fosse. Descobri que quanto mais minha eu a fizesse, mais minha ela seria. Depois veio Flusser e explicou o que disso era verdade e o que era mentira, eu aceitei, continuei e me diverti muito até hoje nesses pequenos e grandes desafios.

CT – Você quer dizer que teve “mestres” que te orientaram no seu caminho, que te apresentaram possibilidades?

GM – Não sei dizer se foram mestres. Diria pessoas mesmo. De parentes e amigos a colegas de profissão, eu sempre procurei ouvir. E é claro que alguns realmente foram mestres (no sentido mais Dead Poets Society que pode existir). A gente acha, no início, que o importante é aprender a usar o fotômetro, ou seja lá o que for. Mas o mais legal é aprender o resto, o quase impalpável. Faço sempre um paralelo com a bicicleta. Aprender a andar de bicicleta é importante, para alguns até um mistério, e no fim é irrelevante. O importante é onde você irá de bicicleta, essa escolha é a mais importante, a mais bacana, é a viagem em si. Ouvir os outros ajudou a encontrar esses caminhos. Ouvir pode ser observar como alguém faz algo, como alguém guarda parafusos velhos num vidro de maionese, por exemplo. Pode ser também o que um colega faz quando não está fotografanfo, ou como ele arruma o estúdio dele. Isso tudo é aprendizado.

casa da avó 1995-2002

a casa da vó, 1995-2002

CT – Gostei do paralelo com a bicicleta. Me fez lembrar de ouvir o Rogério Reis dizendo que a dificuldade técnica em fotografar foi superada pela tecnologia, e portanto o “como” fazer não é mais importante. O que entra em pauta agora é o “quê” e o “porquê” fazer. Te pergunto então qual o rumo que você acha que a fotografia está tomando agora?

GM – Não sei dizer se a fotografia ficou mais fácil ou mais difícil, nem se ficou mais barata ou mais cara. Acho que está tudo diferente, nem melhor, nem pior. Acho que isso vale para o futuro também. Minha vó já dizia: a técnica é o que te dá a liberdade. O que me leva a crer que para fotografar livremente ainda é preciso se aprender muito, seja no campo da tecnologia, seja como se aproximar de alguém do jeito certo, seja como mostrar o trabalho depois. O que acontece é que o fotógrafo pode optar por entregar as decisões fotográficas a serem feitas à câmara, abrindo mão da sua liberdade (na esfera da tecnologia), abrindo mão de possuir a técnica e de dominar a câmara (meio que como colocar rodinhas na bicicleta).

Ou seja, no fundo, o que eu acredito é que essa dificuldade técnica não existe para quem não acredita nela e existe para quem insiste em ter essa liberdade. Um pensamento ambíguo, mas que não me abandona. Acho que “o quê” e “o porquê” sempre estiveram e estarão em pauta, principalmente para aqueles que ou dominaram a técnica ou simplesmente a ignoraram. Realmente, quem está ainda se entendendo com a bicicleta não pode olhar muito ao redor, é melhor concentrar em não cair no chão. Portanto, em termos de previsão para o futuro valem as mais óbvias: fotografar vai ser sempre estudar muito.

CT – Como surgiu a idéia da “refotografia”, de usar o que é descartado, de reciclar materiais e equipamentos?

Acho que esse comportamento que surgiu nasceu de duas coisas separadas que se juntaram.

Primeiro era o jeito como as coisas sempre foram em casa, parafusos usados guardados em potes, esperando que um dia voltassem a ser úteis. Num canto, sempre tinha algo aparentemente inútil, mas dai chegava um momento em que aquele pedaço de madeira brilhava e se encaixava em algo que estava sendo feito, assim voltava à vida útil. Aprendi que quem guarda tem. Depois comecei a fotografar, descobri que os filmes vendidos nas bandejas de saldo, dos “vencidos”, não eram tão inúteis para mim como eram para outros fotógrafos. Cada um com seu jeito de criar imagens. Então comecei a guardar o lixo dos outros para ser meus meios de gerar imagens. Aos poucos fui extrapolando essa idéias para as outras coisas fotográficas que existem. Cheguei à informática, passe lá, voltei aqui e me perdi.

Por outro lado sempre houve uma curiosidade. Quando finalmente li Flusser há vários anos atrás foi que entendi. Ele fala de uma caixa, sim, câmaras são caixas! Droga! Querem que você não entenda o que se passa lá dentro. Isso me revolta. Os avanços tecnológicos são muito rápidos, não dá tempo de acompanhar. São muitas cabeças por ai, pensando na próxima tecnologia e uma aqui tentando perceber como isso ou aquilo funciona. Inconformados por ai, como eu, são aquilo que se convencionou chamar de hackers. Hackers são pessoas que abrem a caixa preta à força, fazem uma escavação (diferentes de crackers que burlam softwares comerciais). Como me interesso por coisas do passado (recente e remoto) acabo acreditando que o que faço é mais arqueologia fotográfica do que qualquer outra coisa.

E a refotografia é isso, um pouco de coletar itens (juntar lixo) com um pouco de pesquisa (descobrir como essas coisas funcionam) para poder usá-las como convier.

scan003meu corpo, 2005

CT – A Rosângela Rennó me disse que já fez de tudo um pouco, incluindo foto de moda, antes de conseguir de sustentar como artista. Você consegue viver da sua produção artística? Como vê esse mercado?

GM – Eu sigo esse mesmo padrão, a produção de fotografias comerciais encomendadas ainda é meu sustento. Sobre esse mercado, estou fazendo esforços para que eu possa participar mais e mais dele. Isso tem acontecido aos poucos e tem sido interessante para minha própria produção.

A minha fotografia nunca precisou de muita verba para ser produzida, graças ao lixo e a sucata. O que não interfere muito nas contas do mês. Já o espaço que isso ocupa fisicamente, é uma outra história.

A produção continua incessante.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: