Polo de Fotografia

A vontade de mudar antes que o mundo acabe

Posted by polodefotografia em 04/10/2009

Pre03250709A fotografia como recorte da realidade e a bicicleta como meio de locomoção, ou seria vice versa?

No filme “Antes que o mundo acabe”, que está em exibição na Premiere Brasil, do Festival do Rio, os dois “aparelhos” mecânicos  (bicicleta e câmera) se confundem e traçam a linha de ariadne na filosofia pessoal do adolescente Daniel Paz, protagonista da película, dirigida por Ana Luiza Azevedo.

Como recorte de realidade, a bicicleta se contrapõe ao uso constante dos computadores por parte dos adolescentes da trama, e está em cena durante quase todo o tempo, dos momentos de tensão aos mais bucólicos, para localizar o cenário em que se desenrola o enredo numa pacata cidade do interior gaúcho, que está antenada no mundo globalizado, mas não perdeu suas características interioranas.

Fruto de uma excelente e prolífica safra gaúcha, o filme foi produzido pela  “Casa de Cinema de Porto Alegre“, responsável por alguns dos melhores filmes nacionais dos últimos anos, como “Tolerância” (Carlos Gerbase), “O Homem que Copiava”,  “Meu Tio Matou um Cara” e  “Saneamento Básico” (todos de Jorge Furtado). Aliás, ressalte-se que este último é integrante dos roteiristas do filme, baseado no livro homônimo de  Marcelo Carneiro da Cunha.

Ressalte-se também que é referência imediatamente correlacionada a Furtado um dos principais recursos visuais/linguísticos utilizados para relatar a história por meio da meia-irmã do protagonista Daniel, a garota Ana Clara.   Utilizando um zootrópo (um dos primeiros aparelhos de imagens em movimento da história),  ela conta os “dramas hormonais/psicoatormentados pela adolescência do irmão de maneira bem-humorada, intercalando as cenas com colagens que faz em casa e que passam ao espectador  “hyperlinks” entre os fatos do filme e informações extra. Da mesma maneira que Jorge Furtado o fez no curta Ilha das Flores…

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Em dado momento do filme chega a fotografia, para fazer seu papel duplo. De recorte de realidade à bicicleta (meio de locomoção). No enredo bem articulado, o pai de Daniel que havia sumido desde o seu nascimento para fotografar o mundo lhe envia imagens, dizendo que quer restabelecer contato, mesmo morando na Tailândia.

A crise com a existência do “novo” pai, tão diferente de seu mundo, se instaura no momento em que há um triângulo amoroso envolvendo a namorada e o melhor amigo, além de uma acusação séria na escola sobre este amigo e o dilema ético de salvá-lo ou culpá-lo…

É claro que enquadrar seu drama, seus questionamentos, a cidade onde vive, os amigos, a namorada, tudo isso vira “terapia” de choque para Daniel que, ahá!,  teve sua bicicleta roubada no que podemos chamar de legítimo fundo do poço adolescente.

O recorte do mundo sob seus olhos o faz se aproximar do pai e do mundo que este novo ser trouxe até ele. Afinal, o pai faz parte de um grupo internacional, chamado antes que o mundo acabe, (entendeu o nome do filme?) e faz chegar até ele outras culturas, considerações, imagens e ideias. “Você conhece as sociedades poliândricas?”, questiona o pai em certo momento do filme, para contar-lhe que há uma região do mundo em que as mulheres possuem vários homens, o que remete diretamente ao triângulo vivido por ele, a namorada e o amigo, e à própria mãe, que deu dois pais…

A imagem de fotografia que faz, não só o espectador, como o fotógrafo literalmente a viajar e levar (fisicamente) a conhecer outros mundos,  é levada, então, a máxima potência e exploração em função do pai do protagonista, como do próprio, especialmente pelo  final do filme que, obviamente, não será contado aqui.

Fica só uma reflexão, inspirada no poeta Charles Olson, lida hoje de manhã em dia nublado do Rio de Janeiro, na Revista Azougue...

“O que não muda é a vontade de mudar…”

Na Premiére Brasil, onde o filme foi exibido, uma coisa não mudou: os aplausos recebidos quando foi premiado no festival de Paulínia.

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2 Respostas to “A vontade de mudar antes que o mundo acabe”

  1. Dizzy said

    Hummm, muito boa pedida!

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