Polo de Fotografia

Sobre vermelhos e vidros

Posted by polodefotografia em 07/05/2008

O vermelho e o vidro traduzem o carioca Cildo Meireles, que tem a ele dedicado um pavilhão com três obras expostas no Centro de Arte Contemporânea de Inhotim (Caci), em Minas Gerais.
Do vermelho, cor de sangue, cor da resistência, das guerrilhas, do comunismo, da paixão, o artista fez uma de suas mais populares obras – “Desvio em Vermelho”, em que um cômodo não identificado e preenchido livremente com uma mobília e detalhes monocromáticos que estafam a visão em aturdimento dos sentidos.
Do vidro, o artista se reveste novamente da contravenção Duchampiana para mais uma vez dessacralizar a arte e estabelecer relações cognitivas novas do espaço com o espectador. Em “Através”, ele sobrepõe camadas de materias transparentes (redes de pesca, peças de voal, venezianas, grades de prisão, treliça de madeiras, arames farpado e um aquário) entremeadas ao redor de uma bola de papel celofone iluminada a partir de um seu núclo e depositada sobre um quadrado preenchido de cacos de vidro, sobre os quais convida o visitante a pisar. Com o estridente ranger desse amassar de vidro, Cildo cria outra forma de estafa, a auditiva. E mais uma vez inquieta os sentidos.
Passeando gentilmente sobre uma lâmina aguda, que separa o neoconretismo e a arte conceitual, Cildo se espalha na amplitude dos espaços com categoria magistral e deixa estupefato a encontrarem significados primários ou secundários vários, embutidos ou escancarados, em suas obras.
Há quem veja nas tramas transparentes, as barreiras, cercas,
obstruções, limites, ou o ambiente de clausura que hoje vive a população das grandes cidades, em particular no Rio de Janeiro, tão envolta com as maravilhas naturais – e por isso desejosa da transparência na arquitetura – e tão cercada da violência – necessitada das grades.
Já do “Desvio para o vermelho”, muito se falou sobre as referências explícitas, ou implícitas da obra para com a ditadura militar, seja pela escolha da cor, seja pelos materiais expostos – a maioria é de mobília ou objetos datados da década de 70 – que revestem o espaço de uma aura até mesmo kitsch uma, que remete ao saudosismo de uma época em que vermelho significava libertação, fúria e renovação.
Razões para reunir sentidos políticos ao trabalho de Cildo não faltam aos críticos. Afinal, foi dele a idéia de escrever “Yankees go home” em garrafas de coca-cola, apenas para citar uma de suas performances públicas que soam como happenings coordenados para, de alguma maneira, ativarem os sentidos do público.
O próprio Cildo já comentou em entrevista que sua intenção passou longe disso e que foi uma escolha meramente movida pela questão cromática. Na mesma entrevista porém, ele mesmo revela que optou pelo vermelho, nesta tabela cromática, “por ser uma cor carregada de simbolismo, que cria uma ambigüidade que interessava a esse trabalho”.
Uma deliciosa inquietude dos sentidos, mais uma vez..
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Uma resposta to “Sobre vermelhos e vidros”

  1. r. said

    gostei. valeu a pena acompanhar o processo duchampiano…

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