Polo de Fotografia

A morte do Real

Posted by polodefotografia em 26/03/2008

Com dois milhões de usuários somente no Brasil, a rede de compartilhamento de imagens Flickr já nem mais é analisada como fenômeno, a exemplo do que ocorreu quando seu antecessor, o orkut – a rede de relacionamentos – explodiu como febre no mundo todo.

Imagens da família, dos amigos, das viagens – físicas e mentais – de fotógrafos se proliferam a cada instante…

Mas, além de contar suas próprias histórias como em blogs, fotologs ou afins que substituíram os diários escritos ou os álbuns familiares, é cada vez mais comum nesta rede de compartilhamento a busca de um ar diferencial nestas imagens.

Como os pintores que se libertaram do comprometimento com a realidade na virada do século XIX, a partir da chegada da fotografia, estes recém intitulados fotógrafos também dão adeus às métricas regras da documentação exemplar de mister cartier-bresson, para partir para o experimentalismo.

Deste sentimento de “tudo posso” com a máquina digital (afinal os gastos diminuíram, os testes são instantâneos, e a técnica cada vez mais dispensável pelo aperfeiçoamento tecnológico) , surgem desfoques (seriam impressionistas?), olhares macros, recortes abstratos da realidade, ops, realidade?

Em “A Câmara Clara”, Roland Barthes alertava para o fato de que o que difere a pintura da fotografia é que nesta última não há invenção: o objeto realmente esteve lá em algum momento. Não foi criado a partir da mente do artista. A fotografia é uma cicatriz do fato enquanto vestígio do que se foi.

Por isso mesmo, Guy Debord, em sua “Sociedade do Espetáculo” lembra que “o espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social mediada por imagens”. Somos isso e nada mais do que isso. O espetáculo exige a visibilidade, como um valor que se sustenta por si próprio, nem que para isso paguemos o preço da redução da concretude do mundo à bidimensionalidade das imagens.

O Flickr é isso. É, como Jean Baudrillard propagou em 2001 – sem conhecer o fenômeno atual da propagação da imagem em todos os meios – o fim do real. Nossa vida virtual que a cada dia substitui mais e mais o “real”.

“Se o real está desaparecendo, não é por causa de sua ausência – ao contrário, é porque existe realidade demais. Este excesso de realidade, da mesma forma que o excesso de informação, põe fim na comunicação”

Jean Baudrillard
in “A Ilusão Vital”

PS: as imagens escolhidas para ilustrar este post são de Jackson Pollock e Andy Warhol. Vale a utilização do excesso de informações de ambos no google para tentar entender a conexão…
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3 Respostas to “A morte do Real”

  1. Bárbara said

    Olá!Tenho que dizer que discordo de Barthes! Então fotografia é só um registro? Não há criação por parte d fotógrafo?Há inúmeros exemplos de fotos “produzidas” por fotografos. De cenas criadas por ele para compor a foto. Fora isso, por mais que um objeto exista no “mundo real”, fora da iaginação do artista e o artista resolva retratar esse objeto em alguma situação (ex. menino andando pela rua carregando garrafa) no ato de fotografar, na escolha das cores (ou PB), na composição, nos efeitos (que hj em dia são cada vez mais comuns) o fotógrafo cria uma nova situação, acrescenta valor ao objeto e ele se torna, ou pode se tornar, algo inclusive completamente diferente. Sem falar na fotografia abstrata, experimental. O objeto existir no mundo exterior ou no interior da mente do artista não faz realmente muita diferença pra mim. Me recuso, realmente a afirmar que não há ato de criação na fotografia! Pode não haver, com também pode não haver na pintura de retratos ou “still life”beijoBárbara Porto

  2. Gustavo said

    acho que o que o Barthes quis dizer é que o fotógrafo não tem como inventar algo que não existe. ele não quis dizer aí que o fotógrafo não foi criativo ou não ousou na criatividade, ou enfim que sua capacidade artística não interferiu, mas sim apenas que em algum lugar existiu o objeto fotografado. nada mais do que isso, bárbara…inclusive pela obra do barthes a gente sabe que ele não descaracterizaria a importãncia da arte fotográfica…

  3. Bárbara said

    Hmmmm….Ok, não se pode fotografar o que não existiu, mas tb não se pode pintar exatamente o que se imaginou. Se vc está falando do objeto que serve de “suporte” para a foto, do material que está sendo clicado, tudo bem, ele tem que ser real. Mas o produto da foto pode sr bem diferente dele. O texto diz:Em “A Câmara Clara”, Roland Barthes alertava para o fato de que o que difere a pintura da fotografia é que nesta última não há invenção: o objeto realmente esteve lá em algum momento. Não foi criado a partir da mente do artista. veja be, u nao li Barthes nem tenho uma bagagem teórica sobre arte e fotografia. Mas estou pensndo enquanto leio este blog. Eu acho que, em alguns casos, o objeto da foto muda completamente após fotografado- digo, no papel ou na fot em si. Ele se torna uma coisa copletamente diferente do que era ao ser clicado e aí entrou a invenção SIM, o que está no papel (ou no sensor,no caso da digital) é produto da mente do artista sim. É isso que estou dizendo. 🙂Entendi a citação e sei que Barthe nao desvalorizava a fotografia, mas acho que essa difereniação não tem muita importância. Erepito:Há invenção em fotografia sim! (talvez emum nível menor, mas dizer que nào há, não da :)))

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